Uso indiscriminado de antidepressivos pode levar ao suicídio
- João Carlos Campista
- 14 de nov. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 9 de dez. de 2019
Por: João Carlos Campista
A depressão e suicídio ainda são tabus no Brasil. Pesquisa do IBOPE revelou recentemente que a falta de informação e omissão ao falar sobre esses dois problemas, são refletidos nos registros de óbitos. Ao ano, em média 11 mil pessoas tiram a vida no País.
Em minha primeira coluna quero abordar esse assunto esclarecendo sobre a ação de antidepressivos, como um dos principais desencadeadores do suicídio.

O termo “depressão” é usado para definir “estados de desânimo em série”, de moderado a grave, que comprometem a saúde física e mental do indivíduo. Mas, afinal, por que estas coisas acontecem? Por que as pessoas ficam assim: com depressão?
A resposta está na forma como se comporta a transmissão (propagação) dos impulsos nervosos ligados a/ou responsáveis pela EMOÇÃO, nestas pessoas! Sendo mais direto, este problema existe porque três tipos de neurônios específicos estão em “desequilíbrio” entre si, um deles responsável em produzir serotonina (5-HT), o outro responsável em produzir Norepinefrina (NE) e o terceiro, responsável em produzir Dopamina (DA). Os dois primeiros neurotransmissores, principalmente estes por serem mais estudados, quando deficientes ou “em menor quantidade (concentração)” em “espaços ou regiões” entre cada um destes neurônios produtores, as chamadas “fendas sinápticas”, geram este transtorno de humor chamado “DEPRESSÃO”.
O impulso nervoso ao passar por estes espaços interneurônios (fendas sinápticas) terá menor intensidade, devido a esta menor produção de NE e 5-HT, e sua transmissão ao próximo neurônio (neurônio pós-sináptico) terá, por consequência disto, um “impulso elétrico ”diminuído”, ou seja, “abaixo” daquele que chegou ao neurônio inicial (chamado neurônio pré-sináptico). Portanto, a deficiência de NE e, particularmente, de 5-HT, no cérebro seria a causa da “DEPRESSÃO ou TRANSTORNO DEPRESSIVO” (subdividido em: 1- TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR, que pode ser recorrente ou único, e 2 -TRANSTORNO DISTÍMICO), classificada como “Unipolar” (as oscilações do humor não alteram a direção).
Quando há alternância entre “Estados Depressivos” e “Episódios de Mania”, fala-se em “DOENÇA BIPOLAR”(subdivididos em DOENÇA BIPOLAR I ou MANIA, e DOENÇA BIPOLAR II, ou HIPOMANIA), em que a Dopamina (DA), produzida pelo terceiro Neurônio citado, além da NE e da 5-HT produzidas pelos dois primeiros neurônios, anteriormente comentados, estão “aumentados” em suas respectivas fendas sinápticas, gerando “estímulos alterados”, o Estado de MANIA. Esta “produção aumentada” de NE, 5-HT e DA deverá ser “reduzida” nestes casos. Esta “TEORIA MONOAMÍNICA CEREBRAL” revela que quando houver déficits destas monoaminas haverá “DEPRESSÃO” e quando houver excessos, haverá “MANIA”. A NE é responsável pela ATENÇÃO (um dos sintomas da depressão é a “falta de atenção” que a pessoa apresenta), MOTIVAÇÃO (diminuída em pessoas com depressão), PRAZER (diminuído em pessoas com depressão) E RECOMPENSA (também diminuída em pessoas com depressão); A DA é responsável pelo “ESTADO DE ALERTA”(ou estado de atenção, diminuído na depressão); A 5-HT responde pela ANSIEDADE (a DA também responde pela ansiedade) e ESTADO OBCESSIVO-COMPULSIVO. Apesar destes três neurotransmissores (NE, 5-HT e DA) regularem “Estados Afetivos” (humor, motivação e emoções), por serem mais estudados principalmente a NE e o 5-HT (neurotransmissores) são importantes na regulação do humor, prazer e excitabilidade cerebral, respondendo melhor pelos estados depressivos.
Os principais receptores pós-sinápticos excitatórios e inibitórios são: para a NE temos o Alfa 1, o Beta 1 e o Beta2. Nos neurônios pré-sinápticos (normalmente) está o receptor inibitório Alfa 2 (de recaptação ou captação da NE e da 5-HT). A alteração (ou aumento) do número de RECEPTORES SEROTONINÉRGICOS (receptores para 5-HT) (o mais estudado neurotransmissor é a serotonina) também pode causar depressão no indivíduo (existem receptores do tipo inibitório 5HT1, subtipos A, B, D, E e F - vamos considerar apenas o 5HT1A – no núcleo da rafe, parecendo ser o receptor envolvido no controle das emoções ou do humor; o 5HT2, subtipos A, B e C – é excitatório e está no núcleo da base (envolvido com a irritação), na área límbica (envolvido com a ansiedade), na medula espinhal (envolvido com as funções sexuais) e no núcleo da rafe (está envolvido com o sono); 5HT3 – (canal iônico no centro do vômito) e receptores serotoninérgicos 5HT4, 5HT6 e 5HT7, também excitatórios. São considerados os mais importantes na neurotransmissão serotoninérgica: receptores 5HT1A, 5HT2 e 5HT3. Com a diminuição destes neurotransmissores nas fendas sinápticas, o organismo passa a “responder” a tal deficiência elevando o número de receptores relacionados a estes neurotransmissores. Parece também estar associado ao aumento do quadro depressivo.
Evolução de tratamentos com antidepressivos

a) Agentes de amplo espectro (apresentavam ações diferentes, ou diversas)
· Década de 1950 (1957) - antipsicótico imipramina (primeiro antidepressivo);
· Década de 1960 – surgimento da desipramina, clomipramina, amitriptilina e nortriptilina, fenelzina, izocarboxazida, tranilcipramina;
b) Agentes mais seletivos (apresentavam ação única)
· Década de 1970 – Maprotilina, Amoxapina.
· Década de 1980 – fluoxetina, sertralina, paroxetina, fluvoxamina, citalopram, Bupropiona;
c) Novos agentes afetando múltiplos sistemas monoaminérgicos:
· Década de 1990 – Nefazodona, Mirtazapina, Venlafaxina;
· Após 2000 – Excitalopram, Duloxetina, Desvenlafaxina.
Portanto, são quatro os GRUPOS DE ANTIDEPRESSIVOS na atualidade:
1) Antidepressivos Tricíclicos – ex: desipramina, amitriptilina, imipramina;
2) Antidepressivos Inibidores seletivos da captação de Serotonina (ISCS), que podem levar ao suicídio, segundo alguns estudos – ex: fluoxetina, citalopram, paroxetina, sertralina, fluvoxamina;
3) Inibidores da Monoamina-oxidase (Timoréticos), que são proibidos a pacientes com tendência suicida – ex: moclobemida;
4) Antidepressivos Atípicos – ex: interferem fracamente ou nem interferem na captação das monoaminas (trazodona, nefazodona, bupropiona, mirtazapina); bloqueiam, preferencialmente, a captação de NE (venlafaxina, duloxetina, milnaciprana).
Quanto a questão dos antidepressivos causaram suicídio em crianças e jovens, a primeira pergunta a ser feita seria: “Como assim?”. Lhe pareceria estranho,, certamente! Mas fosse eu narrar as diversas informações, dentre as mais recentes, certamente não caberia neste jornal!
Logo, convido os senhores a acessarem a internet e pesquisarem sobre, em que situação os antidepressivos poderiam causar suicídio em crianças, adolescentes e jovens, e se surpreenderem, quando descobrirem serem aqueles adolescentes e jovens, que um dia invadiram escolas portando armas de fogo e causando várias mortes, usuários de antidepressivos ISCS, por exemplo.
Deixo aqui a importância de todos seguirem rigorosamente, os conselhos de seu médico (psiquiatra), quando tiverem que usar qualquer tipo de antidepressivo, além da importância de se dirigirem a uma farmácia, portando uma receita padronizada para adquiri-los.
Caso você tenha alguma dúvida sobre o uso correto de medicamentos, estarei a disposição pelo WhatsApp 22 99963-3682.
Até a próxima!
FONTES:
ARAÚJO, S., R., F.,Curso de Farmacologia : Aula 13 – Antidepressivos – Conceitos (parte I) Disponível em https://you tube/cLs3EILtr5A, acessado em 11/11/2019;
LÜLLMANN, H. et all., Farmacologia Texto e Atlas, 5º. Ed., Artmed, Porto Alegre, 2008;
SILVA, M., SAMPAIO, D., ANTIDEPRESSIVOS E SUICÍDIO NOS ADOLESCENTES, Acta Med Port 2011; 24: 603-612.
Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope): Depressão, suicídio e tabu no Brasil – um novo olhar sobre a saúde mental.
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